Leitura do Livro do Gênesis 8,6-13.20-226

Passados quarenta dias,
Noé abriu a janela, que tinha feito na arca,
e soltou um corvo,
7 que ficou revoando,
até que secassem as águas sobre a terra.
8 Soltou, também, uma pomba
para ver se as águas tinham baixado
sobre a face da terra.
9 Mas a pomba, não achando onde pousar,
voltou para junto dele na arca;
porque as águas ainda cobriam a superfície de toda a terra.
Noé estendeu a mão para fora,
apanhou a pomba e recolheu-a na arca.
10 Esperou, então, mais sete dias
e soltou de novo a pomba.
11 Pela tardinha, ela voltou,
e eis que trazia no bico um ramo de oliveira com as folhas 
verdes. Assim, Noé compreendeu que as águas tinham cessado de cobrir a terra.
12 Esperou ainda sete dias, e soltou a pomba,
que não voltou mais.
13 Foi no ano seiscentos e um da vida de Noé,
no primeiro dia do primeiro mês,
que as águas se retiraram da terra.
Noé abriu o teto da arca, olhou
e viu que toda a superfície da terra estava seca.
20 Então Noé construiu um altar ao Senhor
e, tomando animais e aves de todas as espécies puras,
ofereceu holocaustos sobre o altar.
21 O Senhor aspirou o agradável odor e disse consigo mesmo:
‘Nunca mais tornarei a amaldiçoar a terra
por causa do homem,
pois as inclinações do seu coração
são más desde a juventude.
Não tornarei, também, a ferir todos os seres vivos, como fiz.
22 Enquanto a terra durar,
plantio e colheita, frio e calor,
verão e inverno, dia e noite,
jamais hão de acabar’.
Palavra do Senhor.

Salmo – Sl 115, 12-13. 14-15. 18-19 (R. 17a)

R. Oferto ao Senhor um sacrifício de louvor.


12 Que poderei retribuir ao Senhor Deus *
por tudo aquilo que ele fez em meu favor?
13 Elevo o cálice da minha salvação, *
invocando o nome santo do Senhor. R.

1 4Vou cumprir minhas promessas ao Senhor *
na presença de seu povo reunido.
15 É sentida por demais pelo Senhor *
a morte de seus santos, seus amigos. R.

18 Vou cumprir minhas promessas ao Senhor *
na presença de seu povo reunido;
19 nos átrios da casa do Senhor, *
em teu meio, ó cidade de Sião! R.

Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos 8,22-26

Naquele tempo:
22 Jesus e seus discípulos chegaram a Betsaida.
Algumas pessoas trouxeram-lhe um cego
e pediram a Jesus que tocasse nele.
23 Jesus pegou o cego pela mão,
levou-o para fora do povoado,
cuspiu nos olhos dele,
colocou as mãos sobre ele, e perguntou:
‘Estás vendo alguma coisa?’
24 O homem levantou os olhos e disse:
‘Estou vendo os homens.
Eles parecem árvores que andam.’
25 Então Jesus colocou de novo as mãos sobre os olhos dele
e ele passou a enxergar claramente.
Ficou curado,
e enxergava todas as coisas com nitidez.
26 Jesus mandou o homem ir para casa,
e lhe disse: ‘Não entres no povoado!’
Palavra da Salvação.

Meditação

A cura do cego de Betsaida, propositadamente colocada por Marcos num contexto onde se fala da cegueira dos fariseus e dos discípulos, encerra a «secção dos pães».
Jesus, mais uma vez, usa a linguagem táctil, não à maneira dos magos, mas para que a pessoa, que recebe o prodígio, esteja consciente do que se passa. O milagre realiza-se em dois tempos: primeiro o cego vê confusamente: «Vejo os homens; vejo-os como árvores a andar» (v. 24); depois, quando a cura está completa, vê claramente: «ficou restabelecido e distinguia tudo com nitidez» (v. 25).


Jesus não quer atitudes triunfalistas. Por isso, ao despedir o cego curado, recomenda-lhe que não entre na aldeia (v. 26). O verdadeiro crente crê nos milagres, e não por causa dos milagres. Os milagres vêm depois da fé, de tal modo que, se não há fé, ou se ela é fraca, nem sequer acontecem milagres. Além disso, os milagres nunca são enquadrados numa cristologia ou eclesiologia triunfalista. São testemunhos da vinda do Messias que hão-de ser contados de modo discreto por aqueles que os receberam. De qualquer modo, Marcos insiste na «reserva messiânica».


Os crentes não têm que medir forças com os não-crentes. Por um lado, podem perfeitamente admitir que muitos «prodígios» foram efeitos de simples forças naturais desconhecidas pela razão humana; por outro lado, estão conscientes de que a sua fé não vem dos milagres, mas que os milagres a pressupõem. Mas também têm todo o direito a pressupor que certos acontecimentos são verdadeiros «prodígios», pois crêem na força «sobrenatural» de Deus, embora não a possam demonstrar racionalmente.

O dilúvio termina gradualmente, à medida que as águas vão secando. Noé procura conhecer a situação da terra, soltando repetidas vezes uma pomba. Quando ela volta trazendo no bico um raminho de oliveira, compreende, e nós também compreendemos, que a misericórdia prevaleceu sobre o juízo, e que a terra é de novo habitável. A pomba, com o ramo de oliveira no bico, torna-se um símbolo de paz.


Causa-nos espanto a simplicidade com que Deus muda a sua decisão: «De futuro, não amaldiçoarei mais a terra… e não voltarei a castigar os seres vivos, como fiz» (v. 21). Noutro passo da Escrituras diz-se que Deus nunca se arrepende, que não é um homem, para mudar de opinião. Os filósofos insistem nesta imutabilidade de Deus: sendo perfeição absoluta, Deus não pode mudar. Esta contradição não deriva das limitações de Deus, mas das nossas. Não somos capazes de compreender a Deus. Se o compreendermos, deixará de ser Deus, como diz Santo Agostinho. Precisamos até de juntar coisas contraditoras para fazermos uma ideia menos imperfeita de Deus. Insistir na imutabilidade de Deus, como os filósofos, leva-nos a uma ideia mais empobrecida de Deus, que seria, para nós, semelhante a um monte de pedras, que não se move, não tem sentimentos, não vive. Se lermos com simplicidade a Bíblia, vemos que Deus pensa, tem sentimentos, ama profundamente, ira-se com os pecados do povo, muda as suas decisões… E ficamos com a ideia de um ser vivo, cheio de movimento e de riqueza, o que é mais verdadeiro do que a ideia dos filósofos. A Bíblia, por vezes, também fala de Deus como imutável. Mas geralmente mostra-nos um Deus semelhante a nós. A perfeição divina é plenitude e não imobilidade. A imobilidade de Deus encerra todos os movimentos. Deus não tem emoções humanas, mas está acima delas. Não ama como nós, mas ama mais do que nós. Ama de um modo que não podemos compreender.


A humanidade de Jesus revela-nos plenamente o modo de ser e de reagir de Deus. Revela-nos o Coração de Jesus. Jesus, verdadeiro homem, sofreu, amou, refletiu, fez projetos de vida, foi enganado e traído. Atuou com a simplicidade e a humildade que nos mostra o evangelho de hoje, na cura do cego de Betsaida. Jesus leva-o para fora da cidade, põe-lhe saliva nos olhos, impõe-lhe as mãos e pergunta-lhe: «Vês alguma coisa?» (v. 23). Parece que o milagre ficou a meio, pois o homem afirma: «Vejo os homens; vejo-os como árvores a andar» (v. 24). Então, impõe-lhe as mãos e o milagre completa-se. O cego «distinguia tudo com nitidez» (v. 25).


O modo humilde e progressivo como Jesus cura o cego de Betsaida ensina-nos que, na vida espiritual, precisamos de muita paciência. Não podemos estar à espera de resultados imediatos. A nossa compreensão da misericórdia divina avança ao ritmo da nossa cura, que Ele mesmo realiza, com muita paciência

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