Livro do Eclesiástico 17,1-13 (Gr.1-15)1

Da terra Deus criou o homem,
e o formou à sua imagem.
2 E à terra o faz voltar novamente,
embora o tenha revestido de poder, semelhante ao seu.
3 Concedeu-lhe dias contados e tempo determinado,
deu-lhe autoridade sobre tudo o que está sobre a terra.
4 Em todo ser vivo infundiu o temor do homem,
fazendo-o dominar sobre as feras e os pássaros.
5 Deu aos homens discernimento, língua, olhos, ouvidos,
e um coração para pensar;
encheu-os de inteligência e de sabedoria.
6 Deu-lhes ainda a ciência do espírito,
encheu o seu coração de bom senso
e mostrou-lhes o bem e o mal.
7 Infundiu o seu temor em seus corações,
mostrando-lhes as grandezas de suas obras.
8 Concedeu-lhes que se gloriassem de suas maravilhas,
louvassem o seu Nome santo
e proclamassem as grandezas de suas obras.
9 Concedeu-lhes ainda a instrução
e entregou-lhes por herança a lei da vida.
10 Firmou com eles uma aliança eterna
e mostrou-lhes sua justiça e seus julgamentos.
11 Seus olhos viram as grandezas da sua glória
e seus ouvidos ouviram a glória da sua voz.
Ele lhes disse: ‘Tomai cuidado com tudo o que é injusto!’
12 E a cada um deu mandamentos em relação ao seu próximo.
13 Os caminhos dos homens estão sempre diante do Senhor
e não podem ficar ocultos a seus olhos.
Palavra do Senhor.

 

O autor sagrado, inspirando-se na tradição bíblica, que remonta aos dois primeiros capítulos do Génesis, apresenta o homem como vértice da Criação. Mas há uma infinita diferença entre Deus e o homem. E não pode haver qualquer tipo de confusão que leve o homem a cair na tentação da autonomia ou da auto-suficiência perante Deus. Deus é o Criador; o homem é criatura. A maior parte dos verbos tem Deus por sujeito e elenca dons e prerrogativas que tornam grandes e nobres os homens. É Deus que confia aos homens o «domínio» da Criação. O vértice dos dons conferidos aos homens é atingido na expressão: «fê-los à sua própria imagem» (v. 3). É a afirmação mais singular e mais original da antropologia bíblica. Os homens levam impresso em si mesmos algo de divino e são “familiares” de Deus. O v. 7 sugere a ideia de que Deus como que nos emprestou os seus olhos para contemplarmos a Criação com o Seu próprio encanto. Outro excelente dom é o da consciência (cf. v 6b).
Todos estes benefícios de Deus exigem uma resposta. Os homens hão-de reagir a esses dons com o louvor (cf. v. 8). A Criação revela a grandeza e a magnificência de Deus, que o homem, dotado de inteligência, admira e celebra com amor.

 

 

Salmo – Sl 102, 13-14. 15-16. 17-18a (R. Cf. 17)

R. O amor do Senhor por quem o respeita,
é de sempre e para sempre
13 Como um pai se compadece de seus filhos, *
o Senhor tem compaixão dos que o temem.
14 Porque sabe de que barro somos feitos, *
e se lembra que apenas somos pó.R.

15 Os dias do homem se parecem com a erva, *
ela floresce como a flor dos verdes campos;
16 mas apenas sopra o vento ela se esvai, *
já nem sabemos onde era o seu lugar.R.

17Mas o amor do Senhor Deus por quem o teme *
é de sempre e perdura para sempre;
e também sua justiça se estende *
por gerações até os filhos de seus filhos,
18aa os que guardam fielmente sua Aliança.R.

Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos 10,13-16 Naquele tempo:
13 Traziam crianças para que Jesus as tocasse.
Mas os discípulos as repreendiam.
14 Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse:
‘Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais,
porque o Reino de Deus é dos que são como elas.
15 Em verdade vos digo:
quem não receber o Reino de Deus como uma criança,
não entrará nele.’
16 Ele abraçava as crianças
e as abençoava, impondo-lhes as mãos.
Palavra da Salvação.

MEDITAÇÃO

A renúncia ao orgulho é outra característica da comunidade messiânica. O episódio da apresentação de alguns meninos a Jesus é significativo e claro a este respeito. Os discípulos pretendiam afastar as crianças, não porque incomodavam Jesus, mas porque, como as mulheres, representavam pouco ou mesmo nada. Segundo a mentalidade comum, de que os discípulos naturalmente também partilhavam, o Reino não era para crianças, mas para adultos, capazes de opções conscientes, de obras correspondentes e de adquirir méritos. Para Jesus, era tudo ao contrário: o Reino é um dom de Deus, que é preciso receber com disponibilidade. As crianças são as pessoas mais disponíveis para acolher dons, porque são pequenos e pobres, sem seguranças a defender ou privilégios a reclamar. Assim devem ser os discípulos de Cristo (v. 15), porque o Reino não é uma conquista pessoal, mas dom gratuito de Deus a esperar e a acolher com simplicidade e confiança. Ao abraçar as crianças, Jesus elimina toda a distância entre Ele e as crianças, e torna-se modelo daquela vida a que se chama «infância espiritual». De facto, dirige-se ao Pai com a palavra «abba», submete-se à sua vontade, abandona-se nas suas mãos.

A primeira leitura e o evangelho celebram o valor do homem. Vêm, pois, ao encontro da mentalidade que se impôs na sociedade moderna, que proclama os direitos humanos, realça a dignidade do homem e defende a sua liberdade. Infelizmente, na prática, nem sempre assim acontece, pois são ainda demais os atropelos a esses direitos. Na sociedade em que vivemos há pessoas oprimidas e exploradas, que vivem em condições incompatíveis com a dignidade humana: situações de pessoas singulares, de famílias, de grupos. Devemos lutar, conforme as nossas possibilidades, a fim de que a justiça se realize, afim de que o pecado social seja eliminado.
Mas o autor sagrado está interessado em apresentar o homem, não tanto em geral, mas na sua relação com Deus. Na ‘lectio’, notamos que o sujeito de quase todos os verbos é Deus. Como vemos também no Sl 8, é Deus que confere nobreza ao homem e o coloca no vértice da criação. A nobreza do homem é, pois, um dom recebido e não um fruto de sua conquistada. Tudo o que o homem é, tudo o que o homem tem, é dom do amor generoso e gratuito de Deus: a inteligência, língua e olhos, os ouvidos e o coração para pensar, a ciência… O Senhor, acima de tudo, «concluiu com eles uma Aliança eterna e revelou-lhes os seus decretos» (v. 12). O Sábio fala evidentemente da aliança com Moisés e da Lei das duas tábuas. Maior razão temos nós para nos espantarmos diante da bondade divina, ao pensarmos na Nova Aliança selada com o sangue de Cristo e na Nova Lei escrita nos nossos corações, que nos faz viver no Espírito Santo como filhos de Deus.
No evangelho, Jesus repete a este homem tão grande, por causa dos dons de Deus, que saiba acolher o Reino de Deus com a simplicidade de uma criança. Para sermos “crianças”, em sentido evangélico, temos um caminho: ser filhos de Maria. Ela soube ser pequena e estar contente com essa situação: «O meu espírito exulta em Deus, porque olhou para a humildade da sua serva» (cf. Lc 1, 46-48). É difícil sermos felizes com as nossas limitações. O segredo consiste em ser humildes e magnânimos. Por isso, é que Maria pôde falar de si em termos de grandeza e de humildade.
Maria foi adulta na fé. Como diz o Sábio, soube usar o discernimento para raciocinar. Fez perguntas essenciais ao Anjo da Anunciação para obter respostas precisas. Mas também foi pequena, dócil e confiante para se abandonar a Deus e ao seu projeto, mesmo sem perceber tudo.
Agradeçamos ao Senhor por nos ter dado Maria por Mãe e modelo, que nos ajuda a compreender a necessidade da pequenez e a crescer nela para recebermos as graças divinas.

fonte: http://www.dehonianos.org/portal/liturgia

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