6ª-feira da 32ª Semana do Tempo Comum

Carta de São João 4-9

4Muito me alegrei, Senhora, 
por ter encontrado alguns dos teus filhos 
que caminham conforme a verdade, 
segundo o mandamento que recebemos do Pai. 
5E agora, Senhora, eu te peço 
– não que te esteja escrevendo 
a respeito de um novo mandamento, 
pois trata-se daquele que temos desde o princípio – : 
amemo-nos uns aos outros. 
6E amar consiste no seguinte: 
em viver conforme os seus mandamentos. 
Este é o mandamento que ouvistes desde o início 
para guiar o vosso proceder. 
7Acontece que se espalharam pelo mundo muitos sedutores, 
que não confessam a Jesus Cristo encarnado. 
Está aí o Sedutor, o Anticristo. 
8Tomai cuidado, 
se não quereis perder o fruto do vosso trabalho, 
mas sim, receber a plena recompensa. 
9Todo o que não permanece na doutrina de Cristo, 
mas passa além, 
não possui a Deus. 
Aquele que permanece na doutrina 
é o que possui o Pai e o Filho. 
Palavra do Senhor.

Salmo – Sl 118 (119),1. 2. 10. 11. 17. 18 (R. 1b)

R. Feliz é quem na lei do Senhor Deus vai progredindo!


1Feliz o homem sem pecado em seu caminho, * 
que na lei do Senhor Deus vai progredindo!R.

2Feliz o homem que observa seus preceitos, * 
e de todo o coração procura a Deus!R.

10De todo o coração eu vos procuro, * 
não deixeis que eu abandone a vossa lei!R.

11Conservei no coração vossas palavras, * 
a fim de eu não peque contra vós.R.

17Sede bom com vosso servo, e viverei, * 
e guardarei vossa palavra, ó Senhor.R.

18Abri meus olhos, e então contemplarei * 
as maravilhas que encerra a vossa lei!R.

 Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas 17,26-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 
26Como aconteceu nos dias de Noé, 
assim também acontecerá nos dias do Filho do Homem. 
27Eles comiam, bebiam, 
casavam-se e se davam em casamento, 
até ao dia em que Noé entrou na arca. 
Então chegou o dilúvio e fez morrer todos eles. 
28Acontecerá como nos dias de Ló: 
comiam e bebiam, compravam e vendiam, 
plantavam e construíam. 
29Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, 
Deus fez chover fogo e enxofre do céu 
e fez morrer todos. 
30O mesmo acontecerá 
no dia em que o Filho do Homem for revelado. 
31Nesse dia, quem estiver no terraço, 
não desça para apanhar os bens que estão em sua casa. 
E quem estiver nos campos não volte para trás. 
32Lembrai-vos da mulher de Ló. 
33Quem procura ganhar a sua vida, vai perdê-la; 
e quem a perde, vai conservá-la. 
34Eu vos digo: 
nessa noite, dois estarão numa cama; 
um será tomado e o outro será deixado. 
35Duas mulheres estarão moendo juntas; 
uma será tomada e a outra será deixada. 
36Dois homens estarão no campo; 
um será levado e o outro será deixado.’ 
37Os discípulos perguntaram: 
‘Senhor, onde acontecerá isso?’ 
Jesus respondeu: 
‘Onde estiver o cadáver, aí se reunirão os abutres.’ 
Palavra da Salvação. 

Meditação

Nesta breve carta, S. João oferece-nos como que uma síntese do seu evangelho, uma vez que recorda à sua comunidade o essencial para a salvação: “caminhar na verdade” e “acreditar que Jesus é o Filho de Deus”. O apóstolo interpreta o mandamento novo que ele mesmo recebeu do Senhor.
As duas condições para a salvação podem, por sua vez, resumir-se a uma: acreditar em Jesus Cristo e, assim entrar na verdade de Deus. Mas João também se preocupa com a fidelidade dos seus destinatários,porque há muitos «sedutores» (v. 7), que não reconhecem Jesus e pretendem levar os outros a não o reconhecerem também. É sempre possível perder o fruto donosso trabalho, isto é, a fé que pode transformar a nossa vida (cf. v. 8).
Aquele que crê tem a sorte, não só de conhecer a verdade, mas também ter connosco Deus (cf. V. 9), não só de tender para um futuro incerto, mas de caminhar com Cristo para Deus, não só de praticar uma qualquer filantropia, mas de amar a Deus no próximo, em nome de Cristo.

Jesus quer ensinar aos discípulos a verdadeira esperança. Por isso, completa o discurso sobre a sua última vinda. Para que a esperança não se torne utópica e não crie ilusões fáceis, Jesus une-a à fé. A fé, por sua vez, une-nos, desde já, ao Senhor e à sua morte e ressurreição. Unindo a esperança à fé, ficamos a saber quem esperamos, e não nos interessa quando ou como isso acontecerá.Jesus ilustra o ensinamento com dois exemplos: o de Noé (vv. 26s.) e o de Lot (vv. 28s.).

Só aparentemente estes dois factos históricos evidenciam o carácter improviso e repentino do dilúvio, no caso de Noé, e da chuva de fogo,no caso de Lot. O que Jesus quer acentuar é a necessidade de estar prontos quando Deus se manifestar no seu poder: prontos a reconhecê-lo, prontos para ser introduzidos na alegria eterna e na comunhão com Ele. O verdadeiro ensinamento de Jesus é, pois, este: não devemos considerar apenas Noé e Lot como figuras de crentes, mas também os seus contemporâneos, representados pela mulher de Lot (v. 32). Viviam esquecidos de Deus e preocupados com os bens terrenos: foi nessa situação que foram surpreendidos pelo castigo de Deus. É a sua indiferença perante a imprevisível intervenção de Deus, e a sua cegueira espiritual, é a sua incapacidade para se darem conta da dramaticidade dos tempos que atrai a atenção de Jesus, do evangelista e a nossa.


Jesus convida os seus discípulos a fazer bom uso da memória. É bom revisitarmos a história, para nos darmos conta das visitas de Deus, e adquirirmos sabedoria que nos permita viver adequadamente o presente e preparar o futuro. A história é mestra de vida, diziam os antigos. No caso de hoje, somos convidados a revisitar o Antigo Testamento que, para nós cristãos,é uma fonte de ensinamentos sempre válidos e atuais.


A memória do crente leva-o a captar nos eventos históricos as mensagens que Deus nunca deixa faltar àqueles que O reconhecem.Quem recorda os factos históricos do Antigo Testamento, disposto a compreenderas motivações e os modos como Deus intervém, aprende a viver no tempo presente e a orientar-se no futuro, rumo à meta final.


A memória do passado, e a contemplação das intervenções de Deus, tornam-se, pois, critério de diagnóstico de quanto acontece aqui e agora, e permite-nos prosseguir a nossa caminhada, rumo ao futuro. Ao mesmo tempo, a memória do passado, convida-nos e habilita-nos a ultrapassar perigosas distracções, provocadas pelas coisas e pessoas que nos rodeiam, e a realizar aquele desapego e distanciação que tornam possível uma avaliação serena e correcta de tudo e de todos.

A memória ensina-nos a perder o que deve ser perdido e a conservar o que deve ser conservado. É claro o contraste entre uma vida apenas aparente e uma vida nova adquirida por quem está disposto a sacrificar a sua vida terrena. A orientação para o futuro de Deus é clara.


A nossa vida pessoal, com todos os seus capítulos mais felizes ou menos felizes, com todo o bem que recebemos e fizemos, com todo o mal de que fomos vítimas ou cometemos, é uma pequena história de salvação, porque nela fomos, muitas vezes, visitados por Deus. Há que dar-nos conta dessas visitas e das mensagens semeadas no nosso coração. Quanta sabedoria podemos adquirir ao revisitar a nossa história pessoal!

Quanta oração nos pode inspirar! Quanta serenidade para o presente e para o futuro!
A vida  também é história da salvação. O Deus de Abraão, Isaac e Jacob, o Pai de Jesus, não são abstrações filosóficas, mas revelam-se concretamente atuando na história e na vida, em particular na Igreja, por meio do Espírito.

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