Leitura do Livro do Eclesiástico 6,5-175

Uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos;
uma língua afável multiplica as saudações.
6 Sejam numerosos os que te saúdam,
mas teus conselheiros, um entre mil.
7 Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação;
e não te apresses em confiar nele.
8 Porque há amigo de ocasião,
que não persevera no dia da aflição.
9 Há amigo que passa para a inimizade,
e que revela as desavenças para te envergonhar.
10 Há amigo que é companheiro de mesa
e que não persevera no dia da necessidade.
11 Quando fores bem sucedido, ele será como teu igual
e, sem cerimônia, dará ordens a teus criados.
12 Mas, se fores humilhado, ele estará contra ti
e se esconderá da tua presença.
13 Afasta-te dos teus inimigos
e toma cuidado com os amigos.
14 Um amigo fiel é poderosa proteção:
quem o encontrou, encontrou um tesouro.
15 Ao amigo fiel não há nada que se compare,
é um bem inestimável.
16 Um amigo fiel é um bálsamo de vida;
os que temem o Senhor vão encontrá-lo.
17 Quem teme o Senhor, conduz bem a sua amizade:
como ele é, tal será o seu amigo.
Palavra do Senhor

Salmo – Sl 118, 12. 16. 18. 27. 34. 35 (R. 35a)

R. Guiai-me pela estrada do vosso ensinamento!
12 Ó Senhor, vós sois bendito para sempre; *
os vossos mandamentos ensinai-me!R.

16 Minha alegria é fazer vossa vontade; *
eu não posso esquecer vossa palavra.R.

18 Abri meus olhos, e então contemplarei *
as maravilhas que encerra a vossa lei!R.

27 Fazei-me conhecer vossos caminhos, *
e então meditarei vossos prodígios! R.

34 Dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei, *
e de todo o coração a guardarei.R.

35 Guiai meus passos no caminho que traçastes, *
pois só nele encontrarei felicidade. R.

Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos 10,1-12Naquele tempo:
1 Jesus foi para o território da Judéia,
do outro lado do rio Jordão.
As multidões se reuniram de novo, em torno de Jesus.
E ele, como de costume, as ensinava.
2 Alguns fariseus se aproximaram de Jesus.
Para pô-lo à prova,
perguntaram se era permitido ao homem
divorciar-se de sua mulher.
3 Jesus perguntou:
‘O que Moisés vos ordenou?’
4 Os fariseus responderam:
‘Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio
e despedi-la’.
5 Jesus então disse:
‘Foi por causa da dureza do vosso coração
que Moisés vos escreveu este mandamento.
6 No entanto, desde o começo da criação,
Deus os fez homem e mulher.
7 Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe
e os dois serão uma só carne.
8 Assim, já não são dois, mas uma só carne.
9 Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!’
10 Em casa, os discípulos fizeram, novamente,
perguntas sobre o mesmo assunto.
11 Jesus respondeu:
‘Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra,
cometerá adultério contra a primeira.
12 E se a mulher se divorciar de seu marido
e casar com outro, cometerá adultério.’
Palavra da Salvação. 

MEDITAÇÃO

O autor sagrado retira do rico tesouro da experiência humana algumas preciosas máximas que nos oferece. Algumas tornaram-se provérbios populares. E conclui com uma pincelada teológica confirmando que o objectivo da literatura sapiencial bíblica é levar-nos a um encontro muito próximo com Deus.
O primeiro conselho do sábio é que falemos bem aos outros, se quisermos ter amigos. Falar com ira, com sarcasmo, com críticas a tudo e a todos, não alarga o círculo dos nossos amigos. Também é preciso saber escolher os amigos. “Amigalhaços” há muitos. Mas os verdadeiros amigos, os amigos íntimos devem ser bem seleccionados. O autor sagrado sugere, depois destas afirmações gerais, alguns critérios para seleccionarmos os amigos. Há amigos que o são enquanto recebem favores, almoços e jantares grátis. Mas quando surge algum contratempo, imediatamente viram costas e, por vezes, acabam por se tornar inimigos. O verdadeiro amigo há-de ser provado na sua fidelidade, isto é, na sua capacidade de continuar próximo de nós quando surge a tribulação. É esse amigo fiel que constitui para nós «um tesouro» (v. 14), a cujo valor nada se iguala (cf. v. 15).

O EVANGELHO

A comunidade messiânica deve ultrapassar a moral exclusivamente legalista, característica dos fariseus. Eles, com a pergunta sobre o divórcio, querem «experimentá-lo», pô-lo em apuros. O divórcio hebraico era regulado por Dt 24, 1-4, cujo propósito inicial era tutelar a mulher e garantir-lhe uma certa liberdade. Mas as escolas rabínicas discutiam os motivos de divórcio. As mais liberais achavam que bastava a mulher deixar queimar a comida, ou o marido encontrar outra mais bonita, para haver divórcio. Outras achavam que só o adultério justificava o divórcio. De qualquer modo, o divórcio era concedido pela legislação em vigor com muita facilidade, o que naturalmente acabava por prejudicar a mulher.
Como é seu costume, Jesus responde à questão com outra questão, obrigando os seus interlocutores a aprofundar o sentido da sua objecção. No juízo moral, há que distinguir o que é regra humana, por muito aceitável que ela seja, e a perspectiva de Deus. As prescrições mosaicas sobre o divórcio refletem a mediocridade humana e não o projeto primordial de Deus sobre a união do homem e da mulher. A moral farisaica fundamentava-se na não confessada inferioridade da mulher, que era considerada propriedade do homem. Para Jesus, à luz do Gênesis, a união do homem e da mulher é a meta de uma plenitude humana. Não é o homem que toma posse da mulher, nem o contrário, mas, ao casarem, ambos se enriquecem mutuamente. A união matrimonial procede de Deus e é um verdadeiro «sacrilégio» contrapor-lhe um projeto de separação e divergência.
O homem e a mulher levam em si a imagem de Deus-Amor e, ainda que na diferença, são chamados a ser uma só coisa no matrimônio (v. 8). A ninguém é permitido quebrar essa união (v. 9).

VIVENCIANDO A PALAVRA

Para encontrar amigos, há que fazer um bom discernimento. O Sábio oferece-nos conselhos práticos para esse discernimento, lembrando que os verdadeiros amigos são poucos. Há os amigos de viagem, de restaurante, de jogo, de clube, de partido… O verdadeiro amigo manifesta-se nas situações difíceis, quando estamos fragilizados, em crise, quando nada podemos retribuir. É nesses amigos que podemos confiar e apoiar-nos. Muitas amizades são frágeis e superficiais, porque assentes em sentimentos passageiros ou em interesses que, uma vez satisfeitos, fazem esquecer quem os satisfez.
Um critério para avaliar os amigos é-nos oferecido pela fé: quem ama a Deus, procura alimentar a sua vida com valores que verifica com a vontade divina. Por isso, se pode presumir que também seja capaz de cultivar o valor da amizade. Quantas amizades nasceram e se desenvolveram à sombra da torre da igreja ou nos grupos eclesiais. Sem cair em discursos de “gueto”, verificamos que um sentimento religioso comum ajuda a fundar, construir e espalhar o valor da amizade.
Pode acontecer que andemos convencidos de que amar é sempre algo de agradável. Por isso, quando uma amizade se torna difícil, parece-nos que já não existe amor. Jesus, implicitamente, ensina-nos que o amor traz consigo o sacrifício, a capacidade de suportar o outro. É clara a regra que oferece para o matrimónio: Deus estabeleceu que a união esponsal é indissolúvel. Só por causa da «dureza do coração» humano é que Moisés permitiu passar o «documento de repúdio e divorciar-se» (v. 4).
Os discípulos também acharam muito duras as palavras de Jes
us e, por isso, disseram-Lhe: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!» (Mt 19, 10). Mas é dele que vem a força, se formos dóceis à sua vontade, para amar de modo verdadeiro e fiel, com paciência e misericórdia. Parece-nos lógico que os outros tenham de ter paciência connosco. Mas nem sempre estamos dispostos a suportar os defeitos dos outros. «Não vos queixeis uns dos outros», recomenda S. Tiago (Tg 5, 9). Deus não se queixa de nós. Ama-nos porque é «rico em misericórdia e compaixão» (Ef 5, 9).
Muitas comunidades cristãs, e mesmo religiosas, tornam-se ambientes onde se vive como estranhos uns ao lado dos outros, se passa uns ao lado dos outros, mergulhados nas próprias preocupações, nos próprios problemas, sem nos comunicarmos as riquezas, as alegrias, o amor que há em nós. Com este tipo de atitudes, faltam condições para que surjam amizades e possam ser cultivadas.

(fonte: www.dehonianos.com _

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